Em casa II

O vazio cobre os dias como se de um longo e rigoroso inverno se tratasse, lembrando uma grossa camada de neve que nadifica (reduz a nada) a vida tal como a conhecíamos. As ruas, as avenidas, as praças e o recinto de oração do Santuário enchem-se novamente de um silêncio gritante. O prolongamento dramático deste vazio pesa. Pesa duramente aos que combatem na linha da frente, numa constante saída de si até ao esgotamento das próprias forças para preservar a vida de outros, e pesa aos que há muito estão fechados em casa. Também estes são atravessados pela densidade deste inverno.

Ficar muito tempo em casa é duro! Sente-se o risco do isolamento, o corte com a realidade exterior, o embotamento e a perda dos limites do tempo. Emerge o “para quê” de todas as coisas que fazíamos em modo automático. Contrariamente ao ritmo frenético de antes, à overdose de estímulos e de novidades prontas a consumir, o drama da situação pandémica impõe-nos, agora, a monotonia de um longo pousio. Recolhimento obrigatório! Não há “escapadinha turística” para iludir a banalidade lenta dos dias. Sentem-se as plantas a crescer e respira-se ao ritmo com que elas crescem, ouvem-se os minutos a passar, ganha amplitude a mais ligeira reverberação, escuta-se o vento a atravessar na nossa própria solidão, que ecoa como um abismo radical.

Talvez seja a perceção desse abismo que nos atemorize. Talvez porque nos evoca esse princípio virginal, quando a terra era um abismo informe e vazio, habitado pelo espírito de Deus (cf. Gn 1,1-2), desejoso de a fecundar, de lhe dar vida, desejoso de nós; e simultaneamente, porque lembra-nos o fim, também esse, essencial, despido de coisas passageiras, em que estaremos na nossa nudez diante do Amor (cf. S. João da Cruz). Talvez nos atemorize porque nos deparamos com “pântanos” não resolvidos, que a velocidade furiosa dos dias passados empurrou continuamente para um depois, que nunca admitimos enfrentar e colocar à luz de Deus. Assim, apesar de árido e dramático, talvez este pousio prolongado nos reserve ainda algo a maturar, algo de fundamental para uma humanidade qualitativamente melhor: aprender a estar em casa. Só quem “está em casa” pode “ser casa” e construtor de uma casa para todos. É em casa que se começa.

Há dias fui introduzida num novo conceito: “desestragar”, criado por donas de casa em resultado do seu confinamento. Esta condição revelou-lhes que, afinal, precisamos de muito menos do que pensávamos para viver bem e que até é possível viver melhor com menos coisas. “Desestragar” equivale, por isso, a simplificar, esvaziar, reordenar em função do essencial; cuidar e reciclar em vez de estragar e desperdiçar. Se isto vale para a gestão doméstica, o que não dizer da vida espiritual? O silêncio e a constância dos dias oferecem oportunidade para cuidar desse essencial: a relação, primeiramente, com Deus. Só em Deus é que estamos em casa. Valorizar e cuidar do simples, do aparentemente pobre e banal, das nossas relações familiares, pode ser ocasião de acolher a Deus que passa e de consolidar nele uma vida qualitativamente melhor e mais sustentável, porque estruturada do amor, a partir do húmus que somos e que Deus escolheu para morar e amar.

Como diz o Papa Francisco: «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. […] Oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender» (Fratelli Tutti, 35).

Irmã Sandra Bartolomeu

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